São Cipriano Capa Preta

Com a feitiçaria rolando solta no apê, Fabrício e Ariel decidiram se aprofundar no assunto e compraram o Livro de São Cipriano em sua mais terrível edição, a Capa Preta.

O livro conta sobre a comunhão do Santo com as forças demoníacas e é repleto de rituais, feitiços e guias para se conseguir tudo o que se deseja.

Foi quando tudo começou a ficar mais sério, compraram um caldeirão enorme e vários itens e ingredientes para feitiços. Porém, tudo era sempre guiado pela nêga, que nessa altura já os levava ao cemitério de noite para deitarem em túmulos e fazerem pactos de sangue com forças que não entendiam. Era assustador.

Ariel voltou a ver coisas do outro mundo, vultos em todas as partes e sonhos e pressentimentos.

As sessões no apartamento agora tinham como item obrigatório o caldeirão no centro da sala. E todo o tipo de entidade incorporava na nêga, e algumas terríveis como Maria Padilha Mulher de Lúcifer e o Exu Tranca Rua. Ah e não posso deixar de falar que cada um tinha sua própria aparência, inclusive o Seu Cobra Coral que sibilava e tinha aparência de cobra, além de rastejar.

Lembro que em uma sessão Ariel descobriu através de uma entidade dessas barra-pesadas que Thiaghete tinha inveja dele, e num futuro próximo teria a certeza do que foi dito naquela noite.

Eram cada vez mais intenso os efeitos colaterais. Luzes piscando e os elevadores dando tilt, subindo e descendo sozinhos.

Os feitiços para amarrações também se tornaram frequentes e até Ariel fez um, para um professor do colégio que era apaixonado e que inclusive era ex modelo da Hugo Boss, o Alex. Pensa num homem lindo.

Mas este homem tinha outro homem, uma maricona horrorosa que depois do feitiço de separador (separação), foi parar em Israel, o país mesmo.

O problema é que era platônico demais, apesar de Ariel perceber a troca de olhares durante as aulas, não passava disso, pois aquele era o único ambiente em que conviviam.

Ariel acabou desfazendo o separador e a maricona acabou voltando de Israel.

Lembro de Maria Padilha perguntando, Ariel você tem certeza que quer desfazer o feitiço, e Ariel disse sim, afinal existiam tantos homens mais possíveis na cidade.

Até que o professor Alex, numa manhã fora do colégio puxou assunto, e Ariel tímido, gaguejou, transpirou e quase perdeu os sentidos. Era beleza demais a tão poucos centímetros de distância.

Ariel recorreu novamente a Maria Padilha e pediu novamente que aquele homem fosse seu. E Maria Padilha mais uma vez perguntou: “Heya cavalo, voismecê tem certeza?” E Ariel consentiu!

Logo depois Ariel soube que bandidos entraram na casa do Alex e de seu marido, a maricona e a esfaquearam…

Maria Padilha

Em sua nova jornada no “Lugar da Estrela”, significado de Place de L’etoile, Ariel e seus amigos encontraram ali mais que um ponto de encontro, também era um salão de umbanda.

Wellington (nêga) era filho de Santo e sua “entidade” dominante se chamava Maria Padilha Rainha do Cabaré.

Maria Padilha, ou Mary Pad como era chamada por Ariel era inebriante. Sempre que ela vinha, a nêga se transformava, começava com o “cavalo” (o médium) girando e logo depois gargalhando, até dizer algo como um slogan ou título:

Sou Maria Padilha, rainha do cabaré e te dou o macho que você quiser!”

Talvez ela dissesse mais coisas, mas o que posso dizer é que era sempre muito mágica, muito engraçada e sempre dava pra ouvir eletricidade nas mãos de Mary Pad, como se fosse um estalar de dedos elétricos.

O apartamento estava sempre cheio de amigos como a Popô, Thiaghete, que era uma bicha louquíssima, e muitas outras pessoas.

Às vezes, Maria Padilha vinha só, mas as vezes vinham outras “entidades” nada engraçadas. Todo mundo ficava com medo, mas Ariel sentia tudo muito familiar.

Às vezes ela também vinha só pra mandar a gente limpar a casa, rs.

Coisas sobrenaturais sempre aconteciam, como os elevadores que ficavam piscando e subindo e descendo sem nenhuma explicação.

Numa noite Ariel estava dormindo, estava cansado dos estudos e como todo jovem, precisava dormir quando bem entendesse. Era umas 7 horas da noite, a nêga tinha tirado um frango do congelador e colocado numa bacia em cima de uma mureta que ficava ao lado do fogão e que dividia a cozinha da área de serviço.

Ariel estava dormindo no quarto da nêga enquanto uma “entidade” estava lá na sala assustando as pessoas. Ariel sem saber de nada começou a sonhar que estava de baixo da pia da cozinha e tinha que sair dali senão ia morrer. Ariel sonhou que se libertou, mas esbarrou numa bacia na cozinha e acordou. Ao chegar na sala alguém falou que se ele não tivesse acordado, teria morrido.

Final da sessão, a nêga foi pra cozinha ver o frango e ele não estava na bacia e sim no chão.

Essa é uma das muitas histórias, e prometo tentar contá-las…

Place de l’etoile

Parecia um paraíso, pela segunda vez Ariel se sentiu pleno e livre em sua nova casa. Apesar de ser um apartamento simples, de dois quartos, e apenas um aparador e um colchão na sala, onde Ariel dormia, estava tudo bem.

Um dos meninos, Jarbas se bem me lembro, acabou voltando pra Brasília e Ariel ficou morando com Wellington (nêga) e Fabrício. Os três se tornaram inseparáveis e Ariel acabou conhecendo o mundo dos concursos “Miss Gay” e “Miss Drag”.

Em Goiânia não tinha nada parecido, mas em Brasília, Fabrício e Wellington, participavam do “Miss Gay”.

Fabricio e Wellington faziam parte do grupo de transformistas mais conhecidos em Brasília. Certa vez, foram os 3 de ônibus pra Brasília a um dos concursos de miss que sempre tinham por lá. Onde Ariel viu várias beldades de vestidos longos e super maquiadas. Os olhos de Ariel brilharam…

Na volta para casa a amizade ficou mais forte entre os Três. Eles gostavam de descer a um barzinho que tinha na área das piscinas para tomar um drink ao fim do dia. Ariel tomava sempre um Martini com raspinhas de limão.

São tantas histórias naquele lugar…

Soco na Cara

Ariel estava feliz, vivendo sua vida de escola, baladinhas nos finais de semana e namoricos. Também gostava de escrever poemas, letras de música e as guardava numa caixa, junto a cartas de amor, fotografias e recordações.

Numa certa noite, Ariel voltou para casa e ao chegar no seu quarto, a caixa de recordações estava em cima de sua cama com tudo rasgado, seus poemas, suas letras de música, cartas de amor e de namorados, incluindo aquele de São Paulo, lembram?

Ariel deu um grito perguntando:

Porquê?

Seus pais vêem ao seu encontro e Marlos diz: “Na minha casa não vai ter viado, minha casa, minhas regras!” Ariel engasgado com aquela situação absurda tenta retrucar dizendo alguma coisa qualquer e Marlos deu um soco na cara de Ariel.

Por um instante Ariel quis revidar, mas chocado com a situação e com as palavras, “minha casa, minhas regras” e ainda se lembrou de alguns anos atrás quando Marilú disse:

“Prefiro filho traficante, assassino do que homossexual”.

Não tinha o que fazer naquele momento. Ariel se recolheu e esperou ansioso pelo novo dia. Não conseguiu mais olhar na Cara de Marlos, e ligou pro seu irmão Pablo de um orelhão que ficava apenas alguns metros de casa.

Pablo ficou irritadíssimo e falou pra Ariel sair de casa que ele pagaria aluguel, comida, tudo.

Sem saber pra onde ir, foi na casa do Wellington, filho de santo para se consultar com a Maria Padilha e aquele apartamento onde já moravam três Drag Queens se tornaria seu novo lar…

Pomba Gira

“No caminho do terreiro, encontrei uma mulher, era linda e perfumada quis saber quem ela é…”

Ariel não tinha ido a um terreiro, nem sabia o que lhe esperava. Em uma visita a prima de Popô, a Rosy, ao entrar no quarto viu uma cena que mudaria sua vida.

Rosy estava sentada ao chão, com uma moça, que na verdade era um rapaz incorporado com uma entidade chamada Maria Padilha, uma Pomba Gira.

Automaticamente Ariel se interessou naquele clima de magia e Maria Padilha também se interessou por Ariel. Disse que Ariel era especial, cheio de poder, falou da vida após a morte, sobre homossexualidade e consequentemente Ariel ganhou uma vida com menos peso e uma relação espiritual no plano físico.

O “cavalo” ou a pessoa que estava incorporado era o Wellington, recém chegado de Brasília com 3 amigos e que se tornariam peças chaves na vida de Ariel…

As Aventuras com Popô

Foto: Reprodução

Ariel e Popô viveram várias aventuras e Popô era um ímã para novos amigos e confusões, como na vez em que Popô, com 16 anos, pegou o carro de seus pais escondida e foi passear. A mãe de Popô ligou pra Ariel e pediu pra ele segurar a amiga, se ela aparecesse. E é claro que Popô apareceu. Ariel tentou segurar a amiga, mas não conseguiu e sugeriu então que Popô fosse pra casa, que os pais dela deviam estar preocupados e coisa e tal. E advinhem o que aconteceu? Popô bateu o carro dos pais, perda total e de quem foi a culpa? De Ariel, é claro. A mãe de Popô ligou pro Ariel e acabou com ele dizendo que ele tinha avisado Popô que os pais dela passariam na casa dele, o que não aconteceu.

Mas tinham muitas coisas boas nessa amizade, e geralmente eles se divertiam. Como quando estavam na casa da Taty, namorada de Popô e Popô decidiu cozinhar. Ia fazer um arroz de forno disse, e pegou o arroz, tacou farinha de trigo, molho de tomate e queijo ralado e levou ao forno. É claro que Ariel e Taty sabiam que não ia dar certo, mas não queriam acabar com a empolgação da Popô. O resultado foi uma torta horrorosa que foi parar no lixo.

Outra noite na casa da Taty, Ariel estava vendo televisão de madrugada e Popô e Taty estavam namorando no quarto. Ariel passando de canal, parou naquele programa evangélico “Fala que eu te escuto!” O telefone apareceu na tela pra pedir orações para alguém. Ariel começou a rir com seu plano inesquecível. Pegou o telefone, ligou para o Programa que era Ao Vivo e pediu orações para Polyana A.V.M (Nome completo da Popô) e disse que a Polyana A.V.M estava possuída pelo demônio.

Gargalhadas e mais gargalhadas, toda hora o pastor falava, Polyana A.V.M que está possuída pelo demônio. E de tantos risos, as duas saíram do quarto para ver o que estava acontecendo com Ariel e como ele não conseguia parar de rir, apontava para a televisão para Popô e Taty, e quando pensava que não tinha como ficar melhor, apareceu escrito na tela que Popô estava possuída pelo demônio e os três passaram a noite rindo disso.

Lembram do cabelo de dread? Após o episódio com o Tadeu e antes de Ariel ter que cortar os cabelos ele se vestiu igualzinho, apenas como mais maquiagem, do que aquela noite do episódio e saiu na garupa da Jog de Popô, foram passar na porta dos barzinhos da moda, e apenas um rapaz de muitos que eles conversaram e mexeram percebeu que Ariel não era uma mulher cisgenero, e saíram correndo quando iniciou-se um tumulto.

Ariel já queria de alguma forma, expressar sua transexualidade, mas não sabia como fazer ainda.

Seu Delegado Prende o Tadeu

Vange Leonel (1963/2014)

Ariel conseguiu um novo namorado, seu nome era Tadeu. Tadeu devia ter uns 35 anos ou mais e era cabeleireiro.

Eles se conheceram na Jump e lá era seu ponto de encontro, afinal toda essa parte da vida de Ariel era naquela casa noturna.

Uma das coisas que Ariel mais gostava era de que Tadeu cuidava de suas madeixas. Fazia hidratações, relaxamento, escovas e tudo mais.

Num dia, Ariel chegou ao salão de Tadeu e disse que queria fazer mechas no cabelo. Iguais as da Raquel, umas das gêmeas (a má) interpretadas por Glória Pires na novela Mulheres de Areia.

Foto: Reprodução

E é claro que ficou lindooo! Mas Ariel ficou com mais cara de mulher do que já tinha e deu maior problema com Marilú, que não aceitava que Ariel procurasse ficar mais feminina. E acabou tendo que escurecer as mechas.

Ariel nessa época era fã de outra novela chamada Vamp, cuja música de abertura era Noite Preta de Vange Leonel.

A cantora usava seus cabelos como se fossem dreads (por isso a imagem no topo deste post) e Ariel queria fazer aquilo no cabelo e o fez enrolando pequenas partes do cabelo e passando spray fixador.

Naquela noite ia encontrar Tadeu na Jump, e além do cabelo, caprichou no visual para agradar o namorado.

Quando Tadeu chegou, olhou pra Ariel de cima a baixo e falou:

“Tira isso do cabelo agora!”

Ariel tentou argumentar, mas não teve jeito. Correu pro banheiro da boate aos prantos e tentava tirar os “dreads” com água da pia.

Os amigos de Ariel vendo aquilo tudo, aconselharam o jovem rapaz a largar Tadeu. Que Tadeu era grosso, e não o merecia e mais tarde Ariel acabou o dispensando.

Certo dia Ariel recebe um telefonema de Tadeu dizendo que era pra ele ir ao salão. Que não era porque eles tinham terminado que Ariel ia perder os cuidados capilares que Tadeu sempre ofereceu.

E num belo dia Ariel foi. Tadeu disse que ia passar um produto que ia fazer maravilhas no cabelo de Ariel. Fez algumas misturas e começou a aplicação. Coçava muito, mas o resultado foi incrível. Ariel voltou pra casa com os cabelos mais lindos que nunca.

No outro dia, Ariel foi tomar banho e foi onde teve uma grande surpresa. Tufos de cabelo estavam se soltando da cabeça de Ariel. Mechas e mais mechas. Ariel teve que cortar o cabelo curtinho, pois ia cair tudo.

Ariel perdeu a coisa que mais lhe deixava feliz e feminino e agora teria deixar que crescesse tudo de novo, e nunca mais namorar cabeleireiros, e pra ser bem sincero, Ariel passou um bom tempo sem deixar que homens gays cortassem seu cabelo novamente.

“Seu Delegado Prende o Tadeu, ele Pegou Ariel e crau!”